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Bruna Medeiros


            Acho que eu nunca estive aqui para falar sobre o que realmente importa. Romances, desilusões, expectativas... Mas nunca sobre fé. Sobre o amor de Deus. Logo Ele, que nunca me deixou, que sempre me firmou, que sempre foi meu amparo.
            Não sei quanto tempo eu demorei pra entender que a base de tudo é Ele e só Ele. Talvez, com o passar dos anos, eu tenha visto que somente por Ele as coisas se encaminham. E tudo o que tenho e sou, eu devo a Deus. Foi Ele quem me concedeu graças e livramentos, me fortaleceu na fé, me ensinou a ser paciente, afinal, as coisas são do jeito dEle e no tempo dEle. Eu não passo de uma filha que precisa aprender com o Pai.
            Eu sei que as coisas podem parecer difíceis, mas sabe aquela história de que Deus escreve certo por linhas tortas? Nunca ouvi palavras mais verdadeiras do que essas. Nesse mundo com tantas linhas tortas, tem um Deus escrevendo certo. Ele só precisa que você dê esse espaço pra Ele.

            Ele é fonte de amor. Deixe essa fonte jorrar dentro de você.

                Vem com cuidado. Vem uma última vez. Pé ante pé. Pode entrar. Se quiser, pode deixar o casaco em cima do sofá, mas se estiver com frio, não precisa tirar. Sente-se, fique à vontade. Aceita uma água? Quem sabe um café? Tenho certeza que uma cerveja você não vai recusar. Vou buscar, espera só um pouquinho. A Netflix tá aberta, escolhe um filme. Eu gosto de romances, mas se você não gostar, tudo bem. Só não escolhe terror, eu tenho medo, mas se você fizer questão, eu posso tentar. Já estourei a pipoca e o brigadeiro tá quase pronto. A cerveja está do seu agrado? Vou te acompanhar. Gostei do filme. Prefere sofá ou a gente joga um colchão no chão? Colchão, né? Arruma aí que eu vou buscar um cobertor. Tá frio, né? Coloca o casaco de novo, você pode pegar um resfriado. Eu sei que é Goiás, mas eu só tô querendo cuidar de você. Ficou bem confortável assim, né? Nossa, seu pé tá muito gelado. Quer uma meia? Meu Deus, já foi metade do brigadeiro e só estamos nos créditos iniciais. Moço, eu vou pegar uma meia pra você, porque desse jeito eu que vou congelar. Mas esse filme não assusta muito, né? Acho que não vou ver essa parte. O fantasma já sumiu, né? Caramba, como seu abraço é bom. Eu até sentiria medo se não fosse você aqui. Seu coração tá batendo num ritmo engraçado. Ficou com medo também? Eu falei que não gostava de terror. Sabe, eu trocaria qualquer baladinha por isso aqui. Seu beijo é doce. E bom. Obrigada por ter passado por aquela porta. E agora? A gente namora ou assiste mais um filme? Eu sabia que seu pensamento seria esse. Espera um pouco, deixa eu me encaixar nos seus braços. Não vai roncar, hein. Amor? Apaga a luz, por favor.
            Uma lata de cerveja e uma música alta. Marca de batom e mais uma boca pra coleção. Rebate a ressaca com mais uma dose de álcool e mal pode esperar para o final de semana. Luana. Paula. Giovana. Fernanda. Marcela... Será que agora vai ser a Bruna? Mas achei que a Andréia tinha te ligado. Até onde você vai com isso, garoto? Até quando você vai tentar compensar esse vazio com várias bocas? Até quando você vai levar esse jogo de sedução e falsa liberdade a sério? Até quando você não vai se levar a sério? De coração, eu não me importo que você beije uma, duas ou dez bocas diferentes na semana ou no dia, mas me preocupa você fazer isso dessa forma como você tá fazendo. Não é liberdade é prisão. Você está se prendendo cada vez mais a uma vida que não é sua. Ou você realmente acredita que está feliz assim? Quer dizer, tem gente que se diverte e realmente não liga, mas eu conheço você. Não bate aquele vazio quando você coloca sua cabeça no travesseiro pra dormir? Não faz falta alguém que saiba de você mais do que seu nome? Eu sei o quanto você tem motivos para querer se vingar ou se distrair ou tentar colar os pedaços do seu coração, mas você realmente acha que uma coleção de pessoas vazias é capaz de preencher alguém vazio?

            Garoto, você é fonte de amor e não de pegação barata de fim de festa. Se olhe no espelho e deixe a sua luz te iluminar de novo. Deixe o amor transparecer. Seja amor.

            Foi desgaste. Quanto mais o tempo passava, mais estranhos nós éramos um para o outro. As mensagens de bom dia ficavam cada vez mais secas e falar que tinha dormido sem querer era uma desculpa convincente (e muito usada). Os compromissos pareciam ser intermináveis e nós passamos a nos ver com uma frequência mínima. Pessoalmente, não tinha química e menos ainda conexão. Era só física, que depois passou a ser entediante. Começamos a realmente assistir os filmes e você sempre dormia assim que acabava. E quando você estava animado, eu dizia que estava com dor de cabeça. Fomos empurrando com a barriga, adiando o final. Estávamos cansados demais para tentar de novo, mas éramos covardes demais para seguirmos nossas próprias vidas. Mas o pavio acabou, a bomba estourou. Foi choro, ofensa, discussão e até um “te amo para sempre” você me disse (que eu retribui por impulso). A vida, então, pareceu melhorar depois disso. Os dias ficaram mais bonitos e a minha alma parecia mais leve. Então, depois de três semanas e meia, o seu “te amo para sempre” se tornou “em um relacionamento sério”. Não que eu me importasse, afinal, você já era parte do meu passado, mas eu pude ter certeza que não foi só desgaste. A verdade é que nunca foi amor.

            Sejamos gratos. Gratos pela vida, por nossas escolhas, por nossos amigos, por nossas vitórias e até por nossas derrotas, pois elas nos proporcionaram experiência. Sejamos gratos por essa experiência também. Gratos pela natureza, pelas pessoas, pelo conhecimento, pelas coisas banais, pelas coisas que nos são importantes, principalmente, e até pelas florzinhas do facebook que sobem e nos dão uma sensação maravilhosa de coisa fofa. Mas acima de tudo, com base no dia de hoje, sejamos gratos por nossas mães.
            Mães. Elas que aguentaram enjoos, pés inchados, varizes, estrias, cansaço, sensibilidade, sono e dores, mas na hora do parto sorriram pra nós. Elas, que passaram noites sem dormir, lidando com nossas cólicas, nossos choros, nossas energias repentinas, nossas viroses ou apenas velando nosso sono. Elas, que se emocionaram com nossos primeiros passos e até quando dissemos nossas primeiras palavras, mesmo que elas tenham sido “papai” ou “vovó”. Elas, que estavam conosco nas nossas quedas e cuidaram de nossos machucados com merthiolate (ou sal e água, para a turma mais antiga) e beijos. Elas, que nos repreenderam quando fizemos algo errado e por vezes nos deixaram de castigo. Elas, que nos levaram no primeiro dia de aula e choraram mais do que nós. Elas, que nos ajudaram com os deveres de casa e elogiaram rabiscos abstratos como verdadeiras obras de arte. Elas, que estiveram ao nosso lado na nossa primeira paixão, na primeira decepção e nas últimas também. Elas, que nos fizeram quem somos hoje. Meninas, meninos, trabalhadores, estudiosos, mas acima de tudo, humanos.

            Sejamos, então, gratos pela mulher que nos carregou nove meses (mais ou menos) na barriga e o resto da vida em seus braços.

            Eu não sei dizer se foi obra do destino ou se foi uma situação totalmente ao acaso. Eu não deveria estar ali naquela hora, menos ainda naquele dia. Eu devia estar em outro canto, em outros olhos, com outra sensação. Foi quase que imediata a aceleração do meu coração quando ele apareceu. Uma energia estranha fluiu pelo meu corpo e eu me senti vidrada. Ele era bem mais alto que a média e tinha uma serenidade no olhar que transmitia paz até aos corações mais atordoados. Ele permaneceu sério, ainda bem. Se assim eu já estava meio aérea, imagina se ele abrisse um sorrisão. Seria paixão na certa. Se bem que aquilo foi uma paixão instantânea. Diria que seria uma definição perfeita para o termo “amor à primeira vista”.

            Eu não sei quanto tempo eu fiquei encarando-o. Alguns segundos? Alguns minutos? Todo o tempo que ele ficou ali na minha frente? Não sei. Mas ele percebeu. E encarou de volta. Foi uma troca de energia tão grande que qualquer pessoa que estivesse perto poderia sentir. Era como se fossem duas pessoas perto de se matar (ou de se amar loucamente). Olhar em seus olhos era como desvendar o mundo. Me deu coragem, me deu força, me deu ânimo. Eu conseguia me imaginar em seus braços, dançando, sentindo seu calor, seu cheiro, sua respiração, seu toque e seus beijos. Tudo o que eu queria era correr até ele e deixar acontecer. Foi então que ele partiu. Nunca soube seu nome ou algo que não fosse aquela calça jeans justa e a camisa camuflada, mas eu ainda me lembro daqueles olhos castanhos enxergando aquilo que nem os mais íntimos conseguiram ver: minha alma.
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Bruna Medeiros 23 anos, libriana, goiana, terapeuta holística, instrutora de yôga e nômade digital.


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